domingo, 18 de outubro de 2009

JANTAR DE FAMÍLIA

A toalha sobre a mesa, espreguiçava-se deliciada, sacudia-se, como que para retirar o cheiro de guardada por tanto tempo esperar, mas, ao mesmo tempo queria mostrar-se. Mostrar as suas rendas e bordados, e mais tarde ouvir os murmúrios da sua beleza, como se estivesse a ver-se no espelho. Os primeiros risos ouviram-se logo que os pratos pousaram sobre ela. Pratos finos de porcelana colorida, que se enquadravam com as cores da amiga toalha. Sentiam saudades de se encontrar, de ser úteis, de agradar. À chegada dos talheres foi a risada geral, o cumprimento de quem não se vê há muito tempo. Colheres, garfos e facas que faziam parte de um faqueiro com um desenho simples e elegante, e que sabiam que estariam sempre bem, fosse quais fossem os seus companheiros de mesa.


Os copos de vidro, mas de um vidro tão fino que lhes dava o requinte de um copo de cristal, chegaram com o seu ar de ser superior, na sua fragilidade necessária, que os enchia de orgulho. Cada um no seu destino daria o sabor fresco e único do líquido que servissem. Quando a jarra de flores encontrou o seu lugar, todos na mesa a olharam, extasiados com a sua beleza. Felizes por se encontrarem depois de tanto tempo, aguardavam agora o momento de servir. Enquanto isso conversaram baixinho, elogiando, criticando quem ia chegando, e adivinhando quem seria o felizardo que os utilizaria.

A campainha da porta não parava de tocar. Mãe, pai, tios, irmãos, sobrinhos, e, os amigos mais íntimos, aqueles que estão mais perto que a família, entravam sorridentes, bem dispostos, casa dentro. Quem estivesse do lado de fora da casa e pudesse espreitar, poderia certamente comparar a azáfama e o movimento da entrada e saída da cozinha para a sala, da sala para o hall de entrada, com o movimento dos passageiros na entrada e saída do metro numa grande cidade na hora de ponta. A única diferença estaria talvez no sorriso e disposição de cada um, quando se encontrava e quase atropelava, pela diferente circunstância de aguardar uma boa refeição, ou a espera de um longo dia de trabalho, ou ainda talvez o cansado mas esperado regresso a casa. O som que ouviria do lado de fora da porta da rua seria quase o mesmo; um ruído de fundo comparável com o das abelhas em redor da colmeia, transportando todos os elementos para a confecção do seu saboroso mel.

A trovoada provocada pelas cadeiras ajustando-se num pedaço de qualquer lugar da mesa, indicava o início da utilização dos objectos delicadamente colocados sobre a mesma.

O degustar das iguarias de sabor tão delicioso, repetiam-se apenas por guloseima. Sopa de meloa com natas, deixa na boca o sabor fresco da fruta doce. Cheiro de terra com o tempero da água do mar. A espuma do leite, quente, aveludada, envolvida pelo castanho tão único como simples e inconfundível, da afrodisíaca canela. Cabrito assado em cama de castanhas com laranja. Carne macia e suculenta no seu sabor mentolado, faz voar os sentidos da culpa e delicia as papilas na laranja amarga de sabor subtil.

As conversas cruzavam-se na mesa, sorrisos, risadas, perguntas, respostas. Falavam-se de tantos assuntos em simultâneo que não se terminava nenhum. Queria aproveitar-se o tempo de união para dizer tudo o que ficara para trás.

O doce momento das sobremesas chega e naturalmente os temas de conversas mudam, agora de forma mais calma, cada assunto é tratado por todas as pessoas em geral.

Castanha assada em molho de licor de bolota, macia e estaladiça, surpreendente, arrepiante, picante. Bolo de chocolate com pimenta verde, chocolate preto retrai a língua no sabor doce picante, húmido, esponjoso, crocante e delicioso.

De novo o ruído aumenta depois de momentos de espécie de silêncio. Levanta-se a mesa. Pratos, copos e talheres que se reencontram na mesa da cozinha, agora saciados pelo serviço prestado, desejam arduamente o banho esperado na máquina da loiça e depois de bem secos e arrumados aguardam o momento de voltar ao serviço.

Chá preto com aguardente, cafeína subtil do chá sem açúcar e o amargo ardente da água escura do chá, diabolicamente irresistível.

O aroma inconfundível do café enche a casa e cada um sentado ainda na mesa de jantar, ou refastelado no sofá, fala agora num tom mais baixo, onde as conversas voltaram a ser em grupo, e o chocolate que acompanha o café faz terminar com esplendor o jantar de família.

CHEIROS

“Fresco da manhã”


Orvalho da folha na terra molhada, e a maçã colhida no bosque, fresca e madura.

Fragilidade e arrogância do mar, e a gaivota no despertar traz no bico a púrpura alga.



“Sedução”

Queijo e marmelada, um pouco de pimenta, aroma de chá com hortelã, e o desejo do sabor salgado da pele.

Cheiro quente do pão acabado de fazer. Açúcar, ovos e canela, mistura com farinha e manteiga amolecida, e uma pitada de chocolate.



Inocente”

O sabonete macio e cheiroso desfaz-se nas mãos, óleo de bebé, cheiro de mel e as borboletas esvoaçando no prado verde dos malmequeres.

Angelicamente debruçada na janela, olha o céu azul e as estrelas espreitando por entre as nuvens. Olhos azuis entre as franjas rebeldes de cabelo negro.



“Misterioso, subtil”

Os acordes misturam-se entre o piano, o violino e a guitarra. Quando entra o acordeão, a dança agita-se na praça e o cheiro do movimento sugere a dúvida do que se ouve.

Fragrância de amora silvestre, espinhos de rosa vermelha, espalhados nos cabelos com sabor a canela.



Forte e único”

Estrebaria rodeada de pétalas de rosa, rosmaninho e eucalipto. Inesquecível, inconfundível.

Doce e amargo, Mel com limão; Noz-moscada com cravinho e a tentação de um abraço.

BEIJO INOCENTE E CARINHOSO

Pulou para o meu colo e abraçou-me. Entrelaçou seus caracóis nos meus e seus lábios ternos pousaram em minha face, me envolvendo numa carícia deliciosa e comovedora.

BEIJO DE RESPEITO

Ele a olhou com afecto, entreabriu a boca como se quisesse falar; mas as palavras não soaram e harmoniosamente segura sua mão. Meigamente, pousa os lábios em sua testa, dizendo-lhe assim, sem palavras, mas exprimindo toda a verdade dos sentimentos, a grandeza dos elos de ternura, admiração e respeito que une os seus corações fraternos.

BEIJO DE AMOR

Seus lábios doces, levemente tocam os meus, como se sem intenção, quase envergonhados, ruborescerem minhas faces, estremecem minha pele.


Hesitantes, se afastam atemorizados, mas ávidos de emoção voltam. Rodeando-me num abraço apaixonado e roçando minha nuca, perdem o medo e num ímpeto descoordenado e urgente, pressionam meus lábios de forma suave e voluptuosa. Minha boca se abre, deixando sua língua quente e molhada entrar, e, como no encontro do rio com o mar, a explosão invade os pensamentos, a alma ilumina-se, o corpo desejoso e a boca marcada, anseiam um momento sem fim.

"DOR"

Rasgou-se-me a pele, e, transbordou-me a carne. Partiu-se-me o coração, no peito dilacerado. Fugiu-me a cor, com a dor, e a alma cinzenta no fundo preto do poço em que me encontrava aquietou-se. Desvaneceu-se-me o olhar e perdeu-se. Encontrei-me na bruma e decifrei o enigma. Soube ali mesmo que a valia da vida não é mais que a grandeza da morte, e, que a embriaguez dos sentidos me tomou o comando do esquecimento.


Descomedida algazarra de trovões e raios que partem a montanha, fragmentos de um todo que se perde. O mar afastado da areia, escondido da espuma, quer arrepanhar o sol sem brilho e a noite sem luar. O vazio como chuva de pétalas de pedra, adormeceu a esperança e o tempo, pedaço de luz que se esvaneceu, como a vida que me morreu. A dor da morte, doeu-me na vida.