A toalha sobre a mesa, espreguiçava-se deliciada, sacudia-se, como que para retirar o cheiro de guardada por tanto tempo esperar, mas, ao mesmo tempo queria mostrar-se. Mostrar as suas rendas e bordados, e mais tarde ouvir os murmúrios da sua beleza, como se estivesse a ver-se no espelho. Os primeiros risos ouviram-se logo que os pratos pousaram sobre ela. Pratos finos de porcelana colorida, que se enquadravam com as cores da amiga toalha. Sentiam saudades de se encontrar, de ser úteis, de agradar. À chegada dos talheres foi a risada geral, o cumprimento de quem não se vê há muito tempo. Colheres, garfos e facas que faziam parte de um faqueiro com um desenho simples e elegante, e que sabiam que estariam sempre bem, fosse quais fossem os seus companheiros de mesa.
Os copos de vidro, mas de um vidro tão fino que lhes dava o requinte de um copo de cristal, chegaram com o seu ar de ser superior, na sua fragilidade necessária, que os enchia de orgulho. Cada um no seu destino daria o sabor fresco e único do líquido que servissem. Quando a jarra de flores encontrou o seu lugar, todos na mesa a olharam, extasiados com a sua beleza. Felizes por se encontrarem depois de tanto tempo, aguardavam agora o momento de servir. Enquanto isso conversaram baixinho, elogiando, criticando quem ia chegando, e adivinhando quem seria o felizardo que os utilizaria.
A campainha da porta não parava de tocar. Mãe, pai, tios, irmãos, sobrinhos, e, os amigos mais íntimos, aqueles que estão mais perto que a família, entravam sorridentes, bem dispostos, casa dentro. Quem estivesse do lado de fora da casa e pudesse espreitar, poderia certamente comparar a azáfama e o movimento da entrada e saída da cozinha para a sala, da sala para o hall de entrada, com o movimento dos passageiros na entrada e saída do metro numa grande cidade na hora de ponta. A única diferença estaria talvez no sorriso e disposição de cada um, quando se encontrava e quase atropelava, pela diferente circunstância de aguardar uma boa refeição, ou a espera de um longo dia de trabalho, ou ainda talvez o cansado mas esperado regresso a casa. O som que ouviria do lado de fora da porta da rua seria quase o mesmo; um ruído de fundo comparável com o das abelhas em redor da colmeia, transportando todos os elementos para a confecção do seu saboroso mel.
A trovoada provocada pelas cadeiras ajustando-se num pedaço de qualquer lugar da mesa, indicava o início da utilização dos objectos delicadamente colocados sobre a mesma.
O degustar das iguarias de sabor tão delicioso, repetiam-se apenas por guloseima. Sopa de meloa com natas, deixa na boca o sabor fresco da fruta doce. Cheiro de terra com o tempero da água do mar. A espuma do leite, quente, aveludada, envolvida pelo castanho tão único como simples e inconfundível, da afrodisíaca canela. Cabrito assado em cama de castanhas com laranja. Carne macia e suculenta no seu sabor mentolado, faz voar os sentidos da culpa e delicia as papilas na laranja amarga de sabor subtil.
As conversas cruzavam-se na mesa, sorrisos, risadas, perguntas, respostas. Falavam-se de tantos assuntos em simultâneo que não se terminava nenhum. Queria aproveitar-se o tempo de união para dizer tudo o que ficara para trás.
O doce momento das sobremesas chega e naturalmente os temas de conversas mudam, agora de forma mais calma, cada assunto é tratado por todas as pessoas em geral.
Castanha assada em molho de licor de bolota, macia e estaladiça, surpreendente, arrepiante, picante. Bolo de chocolate com pimenta verde, chocolate preto retrai a língua no sabor doce picante, húmido, esponjoso, crocante e delicioso.
De novo o ruído aumenta depois de momentos de espécie de silêncio. Levanta-se a mesa. Pratos, copos e talheres que se reencontram na mesa da cozinha, agora saciados pelo serviço prestado, desejam arduamente o banho esperado na máquina da loiça e depois de bem secos e arrumados aguardam o momento de voltar ao serviço.
Chá preto com aguardente, cafeína subtil do chá sem açúcar e o amargo ardente da água escura do chá, diabolicamente irresistível.
O aroma inconfundível do café enche a casa e cada um sentado ainda na mesa de jantar, ou refastelado no sofá, fala agora num tom mais baixo, onde as conversas voltaram a ser em grupo, e o chocolate que acompanha o café faz terminar com esplendor o jantar de família.
domingo, 18 de outubro de 2009
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