A toalha sobre a mesa, espreguiçava-se deliciada, sacudia-se, como que para retirar o cheiro de guardada por tanto tempo esperar, mas, ao mesmo tempo queria mostrar-se. Mostrar as suas rendas e bordados, e mais tarde ouvir os murmúrios da sua beleza, como se estivesse a ver-se no espelho. Os primeiros risos ouviram-se logo que os pratos pousaram sobre ela. Pratos finos de porcelana colorida, que se enquadravam com as cores da amiga toalha. Sentiam saudades de se encontrar, de ser úteis, de agradar. À chegada dos talheres foi a risada geral, o cumprimento de quem não se vê há muito tempo. Colheres, garfos e facas que faziam parte de um faqueiro com um desenho simples e elegante, e que sabiam que estariam sempre bem, fosse quais fossem os seus companheiros de mesa.
Os copos de vidro, mas de um vidro tão fino que lhes dava o requinte de um copo de cristal, chegaram com o seu ar de ser superior, na sua fragilidade necessária, que os enchia de orgulho. Cada um no seu destino daria o sabor fresco e único do líquido que servissem. Quando a jarra de flores encontrou o seu lugar, todos na mesa a olharam, extasiados com a sua beleza. Felizes por se encontrarem depois de tanto tempo, aguardavam agora o momento de servir. Enquanto isso conversaram baixinho, elogiando, criticando quem ia chegando, e adivinhando quem seria o felizardo que os utilizaria.
A campainha da porta não parava de tocar. Mãe, pai, tios, irmãos, sobrinhos, e, os amigos mais íntimos, aqueles que estão mais perto que a família, entravam sorridentes, bem dispostos, casa dentro. Quem estivesse do lado de fora da casa e pudesse espreitar, poderia certamente comparar a azáfama e o movimento da entrada e saída da cozinha para a sala, da sala para o hall de entrada, com o movimento dos passageiros na entrada e saída do metro numa grande cidade na hora de ponta. A única diferença estaria talvez no sorriso e disposição de cada um, quando se encontrava e quase atropelava, pela diferente circunstância de aguardar uma boa refeição, ou a espera de um longo dia de trabalho, ou ainda talvez o cansado mas esperado regresso a casa. O som que ouviria do lado de fora da porta da rua seria quase o mesmo; um ruído de fundo comparável com o das abelhas em redor da colmeia, transportando todos os elementos para a confecção do seu saboroso mel.
A trovoada provocada pelas cadeiras ajustando-se num pedaço de qualquer lugar da mesa, indicava o início da utilização dos objectos delicadamente colocados sobre a mesma.
O degustar das iguarias de sabor tão delicioso, repetiam-se apenas por guloseima. Sopa de meloa com natas, deixa na boca o sabor fresco da fruta doce. Cheiro de terra com o tempero da água do mar. A espuma do leite, quente, aveludada, envolvida pelo castanho tão único como simples e inconfundível, da afrodisíaca canela. Cabrito assado em cama de castanhas com laranja. Carne macia e suculenta no seu sabor mentolado, faz voar os sentidos da culpa e delicia as papilas na laranja amarga de sabor subtil.
As conversas cruzavam-se na mesa, sorrisos, risadas, perguntas, respostas. Falavam-se de tantos assuntos em simultâneo que não se terminava nenhum. Queria aproveitar-se o tempo de união para dizer tudo o que ficara para trás.
O doce momento das sobremesas chega e naturalmente os temas de conversas mudam, agora de forma mais calma, cada assunto é tratado por todas as pessoas em geral.
Castanha assada em molho de licor de bolota, macia e estaladiça, surpreendente, arrepiante, picante. Bolo de chocolate com pimenta verde, chocolate preto retrai a língua no sabor doce picante, húmido, esponjoso, crocante e delicioso.
De novo o ruído aumenta depois de momentos de espécie de silêncio. Levanta-se a mesa. Pratos, copos e talheres que se reencontram na mesa da cozinha, agora saciados pelo serviço prestado, desejam arduamente o banho esperado na máquina da loiça e depois de bem secos e arrumados aguardam o momento de voltar ao serviço.
Chá preto com aguardente, cafeína subtil do chá sem açúcar e o amargo ardente da água escura do chá, diabolicamente irresistível.
O aroma inconfundível do café enche a casa e cada um sentado ainda na mesa de jantar, ou refastelado no sofá, fala agora num tom mais baixo, onde as conversas voltaram a ser em grupo, e o chocolate que acompanha o café faz terminar com esplendor o jantar de família.
domingo, 18 de outubro de 2009
CHEIROS
“Fresco da manhã”
Orvalho da folha na terra molhada, e a maçã colhida no bosque, fresca e madura.
Fragilidade e arrogância do mar, e a gaivota no despertar traz no bico a púrpura alga.
“Sedução”
Queijo e marmelada, um pouco de pimenta, aroma de chá com hortelã, e o desejo do sabor salgado da pele.
Cheiro quente do pão acabado de fazer. Açúcar, ovos e canela, mistura com farinha e manteiga amolecida, e uma pitada de chocolate.
“Inocente”
O sabonete macio e cheiroso desfaz-se nas mãos, óleo de bebé, cheiro de mel e as borboletas esvoaçando no prado verde dos malmequeres.
Angelicamente debruçada na janela, olha o céu azul e as estrelas espreitando por entre as nuvens. Olhos azuis entre as franjas rebeldes de cabelo negro.
“Misterioso, subtil”
Os acordes misturam-se entre o piano, o violino e a guitarra. Quando entra o acordeão, a dança agita-se na praça e o cheiro do movimento sugere a dúvida do que se ouve.
Fragrância de amora silvestre, espinhos de rosa vermelha, espalhados nos cabelos com sabor a canela.
“Forte e único”
Estrebaria rodeada de pétalas de rosa, rosmaninho e eucalipto. Inesquecível, inconfundível.
Doce e amargo, Mel com limão; Noz-moscada com cravinho e a tentação de um abraço.
Orvalho da folha na terra molhada, e a maçã colhida no bosque, fresca e madura.
Fragilidade e arrogância do mar, e a gaivota no despertar traz no bico a púrpura alga.
“Sedução”
Queijo e marmelada, um pouco de pimenta, aroma de chá com hortelã, e o desejo do sabor salgado da pele.
Cheiro quente do pão acabado de fazer. Açúcar, ovos e canela, mistura com farinha e manteiga amolecida, e uma pitada de chocolate.
“Inocente”
O sabonete macio e cheiroso desfaz-se nas mãos, óleo de bebé, cheiro de mel e as borboletas esvoaçando no prado verde dos malmequeres.
Angelicamente debruçada na janela, olha o céu azul e as estrelas espreitando por entre as nuvens. Olhos azuis entre as franjas rebeldes de cabelo negro.
“Misterioso, subtil”
Os acordes misturam-se entre o piano, o violino e a guitarra. Quando entra o acordeão, a dança agita-se na praça e o cheiro do movimento sugere a dúvida do que se ouve.
Fragrância de amora silvestre, espinhos de rosa vermelha, espalhados nos cabelos com sabor a canela.
“Forte e único”
Estrebaria rodeada de pétalas de rosa, rosmaninho e eucalipto. Inesquecível, inconfundível.
Doce e amargo, Mel com limão; Noz-moscada com cravinho e a tentação de um abraço.
BEIJO INOCENTE E CARINHOSO
Pulou para o meu colo e abraçou-me. Entrelaçou seus caracóis nos meus e seus lábios ternos pousaram em minha face, me envolvendo numa carícia deliciosa e comovedora.
BEIJO DE RESPEITO
Ele a olhou com afecto, entreabriu a boca como se quisesse falar; mas as palavras não soaram e harmoniosamente segura sua mão. Meigamente, pousa os lábios em sua testa, dizendo-lhe assim, sem palavras, mas exprimindo toda a verdade dos sentimentos, a grandeza dos elos de ternura, admiração e respeito que une os seus corações fraternos.
BEIJO DE AMOR
Seus lábios doces, levemente tocam os meus, como se sem intenção, quase envergonhados, ruborescerem minhas faces, estremecem minha pele.
Hesitantes, se afastam atemorizados, mas ávidos de emoção voltam. Rodeando-me num abraço apaixonado e roçando minha nuca, perdem o medo e num ímpeto descoordenado e urgente, pressionam meus lábios de forma suave e voluptuosa. Minha boca se abre, deixando sua língua quente e molhada entrar, e, como no encontro do rio com o mar, a explosão invade os pensamentos, a alma ilumina-se, o corpo desejoso e a boca marcada, anseiam um momento sem fim.
Hesitantes, se afastam atemorizados, mas ávidos de emoção voltam. Rodeando-me num abraço apaixonado e roçando minha nuca, perdem o medo e num ímpeto descoordenado e urgente, pressionam meus lábios de forma suave e voluptuosa. Minha boca se abre, deixando sua língua quente e molhada entrar, e, como no encontro do rio com o mar, a explosão invade os pensamentos, a alma ilumina-se, o corpo desejoso e a boca marcada, anseiam um momento sem fim.
"DOR"
Rasgou-se-me a pele, e, transbordou-me a carne. Partiu-se-me o coração, no peito dilacerado. Fugiu-me a cor, com a dor, e a alma cinzenta no fundo preto do poço em que me encontrava aquietou-se. Desvaneceu-se-me o olhar e perdeu-se. Encontrei-me na bruma e decifrei o enigma. Soube ali mesmo que a valia da vida não é mais que a grandeza da morte, e, que a embriaguez dos sentidos me tomou o comando do esquecimento.
Descomedida algazarra de trovões e raios que partem a montanha, fragmentos de um todo que se perde. O mar afastado da areia, escondido da espuma, quer arrepanhar o sol sem brilho e a noite sem luar. O vazio como chuva de pétalas de pedra, adormeceu a esperança e o tempo, pedaço de luz que se esvaneceu, como a vida que me morreu. A dor da morte, doeu-me na vida.
Descomedida algazarra de trovões e raios que partem a montanha, fragmentos de um todo que se perde. O mar afastado da areia, escondido da espuma, quer arrepanhar o sol sem brilho e a noite sem luar. O vazio como chuva de pétalas de pedra, adormeceu a esperança e o tempo, pedaço de luz que se esvaneceu, como a vida que me morreu. A dor da morte, doeu-me na vida.
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Metade de mim é mentira, porque...
...a outra metade é verdade, e o que vale a pena ouvir é a metade verdadeira.
Olhá-la nos olhos e, se boa, má, ou assim-assim é com essa verdade que tenho que viver. É a essa verdade do que sou, que me entrego, que me dou.
A mentira que mostro, por falta de coragem, por medo ou por vergonha, é algo que inventei, é falso.
Quem me ama, se cruza e se embaraça comigo, conhece a verdade e conhece-me de verdade, por isso só vê esta metade.
Quem marcha lado a lado comigo e vê a mentira inventada e a acha mais bonita, não me ama; Julga-me como a uma montra.
Não conta.
Olhá-la nos olhos e, se boa, má, ou assim-assim é com essa verdade que tenho que viver. É a essa verdade do que sou, que me entrego, que me dou.
A mentira que mostro, por falta de coragem, por medo ou por vergonha, é algo que inventei, é falso.
Quem me ama, se cruza e se embaraça comigo, conhece a verdade e conhece-me de verdade, por isso só vê esta metade.
Quem marcha lado a lado comigo e vê a mentira inventada e a acha mais bonita, não me ama; Julga-me como a uma montra.
Não conta.
Bom Dia Surpresa!
Que bom encontar-te! Não te esperava assimpelo meio do dia. Quase não te reconheci, mas o momento da tua chegada foi mágico e único; absolutamente belo e inesquecivel.
Ainda que um dia eu não possa controlar o comando do esquecimento, tu, surpresa que vieste naquele dia de Verão antecipado, numa Primavera dourada de sol e luz, irás permanecer no mais profundo escaninho da minha alma e o sussurrar leve do barulho da saudade que terei, será a lembrança de um dia perfeito.
Ainda que um dia eu não possa controlar o comando do esquecimento, tu, surpresa que vieste naquele dia de Verão antecipado, numa Primavera dourada de sol e luz, irás permanecer no mais profundo escaninho da minha alma e o sussurrar leve do barulho da saudade que terei, será a lembrança de um dia perfeito.
Chegada
Frescura doce que acompanha o peixe frito acabado de pescar pelo pai no rio da aldeia. O pão que se desfaz na boca amolece no contacto com a doçura da bebida fresca.
Levemente mentolado, o alcool necessário para revigorar da emoção do encontro. A luz que entra pela janela semi-aberta, reforça a vontade de te abraçar.
Chegas mais cedo e a espera termina. O copo da bebida fresca na minha mão voa e de encontro ao teu corpo eu tropeço na lenha do forno que coze o pão. Os meus braços rodeiam o teu pescoço e as lágrimas que correm sabem ao agre e doce do alcool mentolado que bebi. É surpreendentemente agradável e tem graça. Parecemos os palhaços desengonçados do circo que fazem rir as crianças.
Levemente mentolado, o alcool necessário para revigorar da emoção do encontro. A luz que entra pela janela semi-aberta, reforça a vontade de te abraçar.
Chegas mais cedo e a espera termina. O copo da bebida fresca na minha mão voa e de encontro ao teu corpo eu tropeço na lenha do forno que coze o pão. Os meus braços rodeiam o teu pescoço e as lágrimas que correm sabem ao agre e doce do alcool mentolado que bebi. É surpreendentemente agradável e tem graça. Parecemos os palhaços desengonçados do circo que fazem rir as crianças.
Intuição
Concerteza que aqueles olhos azuis, vivos e meigos da Rosalinda, fizeram a delícia dos pais, o terror dos irmãos e a sensatez dos amigos.
Na altura das trapalhices ainda não tinha os cabelos brancos da idade, que lhe confirmam agora o ar calmo, metódico e sabedor com que atravessou a vida.
Que sorte terão tido os trauseuntes que se cruzaram com ela!
Rosalinda é o seu nome, não me surpreendeu ouvi-lo. O seu rosto traduz a Rosa Linda da sua alma.
Na altura das trapalhices ainda não tinha os cabelos brancos da idade, que lhe confirmam agora o ar calmo, metódico e sabedor com que atravessou a vida.
Que sorte terão tido os trauseuntes que se cruzaram com ela!
Rosalinda é o seu nome, não me surpreendeu ouvi-lo. O seu rosto traduz a Rosa Linda da sua alma.
Mecanismos da história - A Máquina do Tempo!
Razão de viver no tempo actual da "dita" sociedade moderna...e antiga.
Nascer, crescer, aprender, correr, funcionar, obedecer, sobreviver...talvez amar!
A máquina da vida, do tempo. O tempo que desafia o tempo, desata os nós. O tempo que refaz o que o tempo desfez, um dia talvez, quando não vivermos apenas...estaremos atentos à vida. A vida inteira pode ser qualquer momento. Vamos pensar e fazer.
Destino! Invenção abençoada. Sorte que se impõe e predestina, lava a alma que te enfada, na força, no fado, no conjunto que no seu poder se anima.
Sofrer a tortura do sonho, imacular o Deus que te domina.
Perdoar a saudade do desejo, a necessidade do consolo. Pedir o sol e a tempestade, o pai, a mãe, o conforto!
Vida...fácil de enfrentar!?
Viver ou morrer...que importa?...é o de menos!
Ser feliz ou não, questão de talento.
Nascer, crescer, aprender, correr, funcionar, obedecer, sobreviver...talvez amar!
A máquina da vida, do tempo. O tempo que desafia o tempo, desata os nós. O tempo que refaz o que o tempo desfez, um dia talvez, quando não vivermos apenas...estaremos atentos à vida. A vida inteira pode ser qualquer momento. Vamos pensar e fazer.
Destino! Invenção abençoada. Sorte que se impõe e predestina, lava a alma que te enfada, na força, no fado, no conjunto que no seu poder se anima.
Sofrer a tortura do sonho, imacular o Deus que te domina.
Perdoar a saudade do desejo, a necessidade do consolo. Pedir o sol e a tempestade, o pai, a mãe, o conforto!
Vida...fácil de enfrentar!?
Viver ou morrer...que importa?...é o de menos!
Ser feliz ou não, questão de talento.
Razão/Corpo - Preconceito/Diferença - Conhecimento/Sabedoria
Mente sã, corpo são! Deixar a razão seguir as suas verdadeiras intenções; as suas verdadeiras razões; a verdadeira razão da sua existência.
Olhar no céu a beleza da lua,
como sentir a noite sem as estrelas do céu?
Olhar no espelho a vida criada num corpo amado por si próprio. Ao olhar o céu as estrelas brilham e cintilam mais fortes!
Imagem inventada pelo homem que pode, a figura que desafia a força da natureza, do fogo, do vento e do sol, o verdadeiro poder.
A emoção e o sentimento perdido no olhar que não existe.
Chora e verás a lágrima que cai no papel que manchas com a tinta da caneta que vai durar e ficar, a razão que se impõe...a mente que permanece.
O que parece fazer de cada um o melhor porque é diferente, serão as qualidades reveladas no coração e na razão. O corpo é igual. Expressa no corpo o sentimento do olhar e olha para o que se apresenta na frente sem ver a cor dos olhos, mas o seu brilho.
O velho, sábio por natureza, pode ajudar. Conhece a montanha porque a subiu, conhece o verde do mato porque é velho, tão velho como ele mesmo.
Saber, não é só conhecer, como correr não é chegar.
Olhar no céu a beleza da lua,
como sentir a noite sem as estrelas do céu?
Olhar no espelho a vida criada num corpo amado por si próprio. Ao olhar o céu as estrelas brilham e cintilam mais fortes!
Imagem inventada pelo homem que pode, a figura que desafia a força da natureza, do fogo, do vento e do sol, o verdadeiro poder.
A emoção e o sentimento perdido no olhar que não existe.
Chora e verás a lágrima que cai no papel que manchas com a tinta da caneta que vai durar e ficar, a razão que se impõe...a mente que permanece.
O que parece fazer de cada um o melhor porque é diferente, serão as qualidades reveladas no coração e na razão. O corpo é igual. Expressa no corpo o sentimento do olhar e olha para o que se apresenta na frente sem ver a cor dos olhos, mas o seu brilho.
O velho, sábio por natureza, pode ajudar. Conhece a montanha porque a subiu, conhece o verde do mato porque é velho, tão velho como ele mesmo.
Saber, não é só conhecer, como correr não é chegar.
O Corpo e a Loucura
Alegria, pureza, felicidade
simples forma de amar e viver.
Poder, domínio do mal e do bem!
Tortura, castigo, punição...
Alimenta a alma e confunde a razão.
Só assim o tempo corre, passa.
Olha-se o céu, limpam-se as lágrimas e agardece-se na má-sorte, na doença, a bondade do ser
que nos destina.
simples forma de amar e viver.
Poder, domínio do mal e do bem!
Tortura, castigo, punição...
Alimenta a alma e confunde a razão.
Só assim o tempo corre, passa.
Olha-se o céu, limpam-se as lágrimas e agardece-se na má-sorte, na doença, a bondade do ser
que nos destina.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
O Banho
Cinco da tarde, é tempo de exercício físico. Meia-hora, ou a tentativa de uma hora de bicicleta, 500 ou 1000 calorias perdidas. Os auscultadores nos ouvidos, onde a música soa em tom bem alto, dirigem o ritmo dos pedais, como se de uma orquestra se tratasse. Transporto a minha mente à infância e vejo os ciclistas subindo a Serra da Estrela. Lembro do suor escorrendo pelos seus rostos, como água na fonte. Imaginava na altura a comichão que fariam as gotas de suor deslizando pelas suas costas e como fariam eles para coçar, pois não podiam tirar as mãos do volante!
Imaginando o prado verde da Serra, vou subindo a montanha na minha bicicleta, em frente ao espelho na parede do meu quarto. Vejo as gotas de suor que lentamente se formam bem no fundo dos meus caracóis, e sinto a comichão outrora imaginada, inquietantemente, alucinantemente fazendo o meu corpo estremecer, enquanto as gotas vão molhando os auscultadores, molhando cada vez mais a minha blusa já agarrada ao corpo. Olho o marcador da bicicleta, e percebo que por hoje chega.
Do quarto para a casa de banho, ponho a água quente a correr na torneira, encho a banheira, onde a espuma me espera como algodão doce.
Dispo a roupa, sinto no corpo a diferença da temperatura, o suor arrefecendo, as gotas escorrendo. Os pés agora descalços, primeiro no mosaico cinzento do chão da casa de banho, e depois no tapete, sentem o frio do mármore e o deslizar confortante e quente do tecido. Entrando na banheira, sinto o calor morno da água, provocando um arrepio delicioso, como uma sobremesa agre e doce. Nas nuvens de espuma em que me afundo, imagino um grande monte de bolinhas de esferovite onde enterro minhas mãos. Mergulho o corpo dentro de água e uma sensação de liberdade absoluta invade a minha alma.
A esponja volumosa, mas delicadamente macia, com um gel cheiroso, percorrendo o meu corpo, lava as gotas de suor cansado, mas desejado.
Um pouco de champõo frio nas mãos, contrapõe o quente da água e provoca um arrepio delicioso. O líquido espalhado no cabelo impõe a leveza necessária para o conforto. Um pouco de óleo deslizando pelos braços, pelas pernas, pequenas gotas gordurosas e macias deslizam como as gotas de suor, mas sem comichão. Depois a água que flui em pressão pelo duche, atravessa a pele, trespassa o coração e ilumina a alma. O veludo da toalha enrolado no meu corpo revigora as forças e a vontade de ficar, chegada que estou ao cimo da montanha.
Imaginando o prado verde da Serra, vou subindo a montanha na minha bicicleta, em frente ao espelho na parede do meu quarto. Vejo as gotas de suor que lentamente se formam bem no fundo dos meus caracóis, e sinto a comichão outrora imaginada, inquietantemente, alucinantemente fazendo o meu corpo estremecer, enquanto as gotas vão molhando os auscultadores, molhando cada vez mais a minha blusa já agarrada ao corpo. Olho o marcador da bicicleta, e percebo que por hoje chega.
Do quarto para a casa de banho, ponho a água quente a correr na torneira, encho a banheira, onde a espuma me espera como algodão doce.
Dispo a roupa, sinto no corpo a diferença da temperatura, o suor arrefecendo, as gotas escorrendo. Os pés agora descalços, primeiro no mosaico cinzento do chão da casa de banho, e depois no tapete, sentem o frio do mármore e o deslizar confortante e quente do tecido. Entrando na banheira, sinto o calor morno da água, provocando um arrepio delicioso, como uma sobremesa agre e doce. Nas nuvens de espuma em que me afundo, imagino um grande monte de bolinhas de esferovite onde enterro minhas mãos. Mergulho o corpo dentro de água e uma sensação de liberdade absoluta invade a minha alma.
A esponja volumosa, mas delicadamente macia, com um gel cheiroso, percorrendo o meu corpo, lava as gotas de suor cansado, mas desejado.
Um pouco de champõo frio nas mãos, contrapõe o quente da água e provoca um arrepio delicioso. O líquido espalhado no cabelo impõe a leveza necessária para o conforto. Um pouco de óleo deslizando pelos braços, pelas pernas, pequenas gotas gordurosas e macias deslizam como as gotas de suor, mas sem comichão. Depois a água que flui em pressão pelo duche, atravessa a pele, trespassa o coração e ilumina a alma. O veludo da toalha enrolado no meu corpo revigora as forças e a vontade de ficar, chegada que estou ao cimo da montanha.
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
50 anos
50 anos...vida completa, cheia de tudo e de nada.
Cada estrela no céu, um dia na minha vida, uma tarefa a cumprir, um sonho a conseguir, uma estrada para prosseguir, muitas pedras para tropeçar, muitos objectivos a alcançar.
Para quê tantos dias?
Três chegavam. O primeiro para plantar uma árvore, o segundo para ter um filho e o terceiro para escrever um livro. Se para mim a vida fosse uma coisa vaga, talvez fosse suficiente, mas não foi nem é assim.
No dia em que nasci, há 50 anos, dois anjos se aproximaram de mim. Um bom e outro mau. Vieram proclamar os seus desejos. o mau, pelo instinto da própria maldade forçou a entrada e chegou primeiro. Olhou-me profundamente e com um sorriso irónico e maldoso disse:
- Para ti, pequena criança que nasceste por engano, menina que nasceste onde não devias, a tua sorte eu amaldiçoo. Terás uma vida mais longa do que vais desejar e sofrerás sempre do "mal de viver". Saiu, sem olhar para trás e sem que eu tivesse tido tempo de lhe pedir misericordia.
o anjo bom, sensibilizado como que acabava de ouvir, penetrou o seu olhar meigo e sensível em mim, e com um sorriso doce disse-me:
- Não tenho poder para anular a maldição do anjo mau, mas o meu desejo entrará em ti como um raio de sol e serás forte e capaz. Ainda que com muito sofrimento, batalhando sem cessar, irás chegar, abraçar, receber prendas e companhias. Terás o céu e a lua. A chuva e o sol irão envolver em ti o seu poder. O beijo perfeito será teu. Terás todo o tempo a que tens direito. Eu, o anjo bom, farei a seta bater-te no peito.
Com premonição antecipada da minah vida inverti a ordem dos acontecimentos, fui ambiciosa e precisei de 50 anos. Plantei uma grande árvore com muitas ramificações. Fiz e tive dois filhos lindos e bondosos. Escrevi poemas, escrevi livros, pensamentos, sonhos e emoções. Perdi-me e encontrei-me, desesperei e cheguei. Parti e voltei. Tropecei, caí, mas não fiquei no chão. Tive uma casa com varanda, para ver o sol e espreitar a lua entre as montanhas. A lareira acesa aqueceu o meu peito e a minha alma. Tive a jarra com flores em cima da mesa. Uma voz cantando. Cantigas de amor ouvi e com elas sorri. Lado a lado, em caminhos paralelos, ouvia cantigas de maldizer. Lado a lado, paralelas, não se encontravam!
Ainda que sofrendo do "mal de viver", cheguei. Em frente, onde está o futuro. Com e sem direcção. Deus na mão e ilusão no coração. Tive pão e pude distribui-lo. Inventei tempo por não ser capaz, sonhei em esquecer, esperei pelo tempo e perdi tempo a correr. Voei para dizer, mas o tempo não parou para eu crescer.
Toquei olhares e sorrisos, compaixões, desilusões, desgostos e venturas. Alcancei sonhos impossíveis. Ouvi a música, gostei da cantora, toquei-a, olhei-a de perto e senti o seu cheiro. Li o livro e invejei o autor. Escrevi o livro e foi lido. Vi a criança nascer, ajudei as mães e as avós. Dei conselhos e pûs a mão sobre cabeças. Fiz o bem e o mal. Vi o sol amanhecer e o céu escurecer. Sorri com a poesia, com o sol do meio-dia, com festas ao amanhecer.
Fui feliz perto de ti, chorei por mais um dia a viver, com cenários inimagináveis, cenas indesejadas. Chorei quando a vida me morrer e a morte me ergueu.
Tive pai, mãe, irmãos. tios, avós, primos, sobrinhos e afilhados, sogros e cunhados. Família que se ama e se odeia. Que nos ri e nos chora. Que fica sem se querer, que se quer e não se tem. Usei máscara e coroa. Fui rainha e cinderela.
Tive patrões, chefes e colegas, louvores, homenagens, flores e anéis, letras e poesias.
Tive amigos de infância e amigos para sempre.
Tive a boca molhada com beijos roubados e oferecidos.
Tive amores de quem gostei, amantes por quem me apaixonei, amizades, amores eternos que criei. Os amores vão e vêm, são cobardes e rebeldes, querem-se e desprezam-se.
Os amantes riem, vivem a chama, a labareda do amor, queimam-se a apagam-se.
As amizades inventam-se e existem. Plantam-se e florescem. Criam-se e perduram. O amigo não morre, nem vive. Dá-se e entrega-se; chega e dá a mão, dá a cana e ensina a pescar. Empresta os ouvidos e o coração. Dá o pão.
Agora, ainda que sofrendo pelo "mal de viver", num tempo que não refaz o que desfez, já não há tempo, já tudo mudou de cor. Escuridão, esplendor, morte, vida e esperança ainda cabem, ou já cabem em mim.
Vestida de dourado, com cheiro a alecrim, a alma iluminada e com corpo de mulher.
Marcas do que fui e sou são reserva limitada e doada. Estão nos beijos que recebo e nos ensinamentos que deixo.
A minha vida por quem inflama o meu coração. Os meus filhos e os que adoptei, e o meu bem-querer que não tem "não" no coração, fazem sorrir a alegria triste da minha felicidade.
A maldição do anjo mau perdurou e me acompanhou, mas a bondade e os desejos do anjo bom, foram rosas vermelhas e brancas que cresceram no meu coração.
Um rosto com carinho e afeição, uma morte antecipada numa vida vivida.
Vida de louvores, poemas e cantigas! Filhos e amigos!
Que mais posso querer?
Durante o dia o sol teimava em brilhar e aquecer os corações. As noites continuavam a ser belas noites de Verão, quentes e calmas, em que cada vizinho trazia a sua pequena cadeira de madeira, e em que cada um sentado à sua porta, naquela pequena rua, falava do que lhe ia na alma.
As mulheres aproveitavam o tempo para adiantar a toalha de renda que queriam pôr na mesa, no dia do casamento da sua primeira filha.
Cada palavra tinha a dureza e o cansaço da vida, igual a cada ruga dos seus rostos marcados pelo sol, mas havia esperança em cada palavra que os seus corações ditavam.
A todos eu conhecia desde o tempo em que me trouxeram ao colo. De cada um levaria a recordação carregada de saudade que eu já sentia, apesar de ainda não ter partido. Sorria, ao ouvi-los através da janela do pequeno quarto que dividia com a minha irmã Rita. Desenhos reflectidos pela luz do candeeiro que incidia nas paredes pintadas de azul-escuro, faziam-me imaginar as personagens dos livros que lia. A melodia suave, talvez até triste, das músicas que ouvia, fazia-me sonhar com uma felicidade encantada e inventada...a felicidade que o Sr. José, também sentado na sua cadeira, e de todos o que eu mais amava...me fazia acreditar! Um dia talvez!
Uma angústia rebelde, que eu contrariava, sem conhecer o seu nome nem o seu rosto, invadiaa o meu coração desde os tempos mais remotos que a minha memória regista. Teimosa angústia que insiste em entrar apesar das portas fechadas.
Do lado de cá, através dos vidros da janela está o mar, dizem!
Além, bem no fundo, estão as montanhas. Montanhas, da serra da minha infância, são elas que eu vejo, com a mão dada ao Sr. José que me ensinou a amá-las. O Sr. José que protegia do frio e do medo da vida. Belas, únicas, as minhas montanhas, rodeadas da mais verde relva, onde um dia refresquei os pés descalços no orvaloho da manhã.
As únicas boas recordações da infância: O Sr. José e as montanhas.
As montanhas ainda estão lá, o Sr. José não.
Longe, no tempo e no espaço, vejo-os através dos vidros da janelas, no lugar do mar.
O canto das aves, a cauda abanando, a flor a desabrochar no canteiro, tudo parecia dizer que era a Primavera da vida, um tempo de adolescência, de alegria, de irreverência, de encontro com o namoro e com a alegria de viver, mas apesar do brilho do sol, fazia muito frio e as manhãs pareciam velhas.
Um amor me consumiu e depois sumiu. Num tempo de entrega, me doei; A quem me amou, a quem me odiou, me aceitou e me recusou. Sempre atenta, sem me distrair, enganei-me sem saber, abri portas e não saí. Dei-me a quem me matou, ressuscitei sem me arrepender. Amarga vida que vivi no amor desmemorável, por esse amor que me teve e a quem amei como a ninguém.
Tendo por tecto o céu e o passo por sapato, não pensando e não querendo pensar, tinha chegado o momento de partir.
Sem dizer que seria a pessoa certa, toquei o seu olhar. Em busca do vale encantado, procurando o céu, a estrela cintilante, pensando ter razão na hora certa, magoei quem me quis bem. Fecho os olhos para rezar e peço perdão; perdão porque eu não queria renunciar a mim, ainda queria continuar viva, continuar a vida, encontrar o caminho de regresso ao passado. Olhava o novo pelo velho, não percebia que o futuro fica em frente. O meu ser errante, num esforço sobre humano foi traiçoeiro e cometeu a maldade de trocar a verdade pelo sonho. Não soube ver a realidade, e as palavras acabaram.
Nós, que a vida atou fui desatando sem cessar.
Marcou a vida a minha alma, minha pele, minhas entranhas. Erros, acertos, verdades, enganos e desenganos. Entre lágrimas, risos e até cantigas...enfrentando acusações, libertei-me das algemas e amarras, saboreei a liberdade e de forma simples e singela, apenas contrapûs poemas a intrigas. Riqueza para mim é o sol, o vento, a chuva, algodões espessos de nuvens num céu brilhante de amor. O meu ouro inútil, troquei por poemas e cantigas. O meu destino segui, e encontrei a mais valiosa razão, os meus filhos, um momento sem descrição, vida plena, uma forma de viver, um momento de morrer, um momento que sem modéstia, declamo em tom alto e superior, momento meu, absoluta e egoístamente meu!
Sempre corri atrás da vida, pedi licença mas sempre entrei, e se algum cansaço sinto, é dos passos que não dei. Consegui vitórias e fracassos mas não os separei, e muito menos ignorei os fracassos. Venci-os, entre lágrimas e segredos, na ilusão de um mar invisivel, por tantas vezes em que o meu mundo escureceu.
Com todas as virtudes e erros, caminhei, chorei, ri. Vivi uma vida cheia de tudo e de nada. Uma vida profunda, rente à pele, olhos nos olhos, sem mistério.
Olhando a aurora nascer, enxerguei a sua cor, o meu sangue ferveu e o meu pulso acelerou.
As marcas do que fui e sou, me dão beijos, carícias, cuidados, carinhos e rosas, muitas rosas, algumas vermelhas. A beleza do amor paira sobre mime eu sou feliz. No encontro com o Outono da vida tenho as montanhas bem juntinho do mar.
Em todos os períodos de férias escolares eu ia com o meu avô e os seus empregados para os diversos pomares de fruta, colhia maçãs, laranjas, pêssegos, tangerinas, que mais tarde iria vender nos mercados e eu ia com ele. Oh! como eu gostava! Gostava do convívio com os empregados, do trabalho do campo, de comer a merenda do almoço numa mesa feita de pedras, de beber a água fresca do rio que passava por entre as àrvores, de colher a fruta e mais tarde vender essa mesma fruta; Do contacto com público era mesmo o que eu mais gostava.
Correndo pelo pomar de laranjas, olhando a sua extensão e grandiosidade, pensava na dimensão do mundo, do que seria a minha vida. A minha vida correu, crescendo como cada uma das àrvores dos pomares, que em cada ano florescia e fazia nascer um novo fruto.
Tinha, plantada dentro de mim a semente da descoberta, da aventura, da ambição, mas mais que tudo a semente do amor e da amizade, da honestidade e da confiança. Aparte do que o destino já tinha traçado para mim, sempre tentei seguir o meu caminho, baseada nos valores que sentia como verdadeiros, nos valores que o meu pai e o meu avô me tinham ensinado, e a principal qualidade que aprendi foi a de amar os outros como a mim mesma.
Com o meu pai ia fazer as entregas da fruta aos clientes, em todas as cidades, aldeias e vilas do distrito onde vivíamos. Quando o Inverno era rigoroso de mais e toda a fruta amadurecia em simultâneo, e por isso se estragava com facilidade íamos para as povoações mais pobres vender a fruta a peços mais baixos. Chegados aí, eu saía do carro e chamava as pessoas do povoado, incitando-as a comprar. Delicadamente lhes falava e com muita facilidade lhes vendia a quantidade de fruta que queria. Sempre foi fácil fazer as pessoas confiar em mim e nas minhas intenções. No entanto, algumas vezes tive a tendência para as enganar no peso da fruta, ou no troco. A maior lição de que me lembro foi precisamente quando o meu pai percebeu que eu estava a tentar enganar uma freguesa. Chamou-me à parte, e, sem me ralhar, num tom doce e suave, mas autoritário o suficiente para que eu não esquecesse nunca, e olhando-me profundamente, disse-me que a maior qualidade do ser humano é a honestidade.
"Não te aproveites das tuas qualidades para enganar o próximo, sê fiel a ti mesma", disse-me. Pediu-me então para continuar a atender a freguesa, e, como se nada tivesse acontecido beijou-me a face.
Aindahoje, cinquenta anos depois, lembro este acontecimento com todo o carinho com que o meu pai falou comigo naquele dia, que foi o primeiro do resto da minha vida.
Com os ensinamentos que havia tido, reguei todos os dias cada uma das sementes plantadas em mim, procurei dar-lhes o sol, a chuva e o vento necessários para o seu florescimento, e em cada uma das sementes eu encontrei um novo fruto nascendo.
Fiz da vida um barco e com ele naveguei pelo mundo. Em cada porto, em cada cais, o movimento do barco foi seguindo o rumo do vento, rolando na dança das ondas, encantando-me em cada noite de esplendor.
Conheci a amizade, a lealdade, a paz, a inquietude e a mentira. Caminhei, chorei, ri, cometi maldades e loucuras, apanhei flores no jardim e ofereci o meu coração. Doei-me por inteiro, recebi louvores, flores, cantigas e poemas.
Na estrada da vida, vi alua iluminar a casa, vi o sol nascer na montanha, a chuva cair na praça, vi o homem lavrar a terra, vi o relâmpago e ouvi o trovão. Vi a moça olhar o mar, acreditando. Vi o tempo dificil aperfeiçoar o aprendiz e vi o rapaz chorar.
No caminho que segui, por entre glórias e infortúnios, chorei a rir e ri para não chorar, ousei cantar e dançar, e entre a arrogância e a tolerância, aprendi a não andar com os pés no chão e a olhar o horizonte, e, sem me precipitar no tempo, fiz promessas que cumpri, senti o coração pulsar e conheci o amor.
Nossa Senhora da Estrela, Senhora da serra onde eu nasci, sempre me acompanhou e protegeu. Ajudou-me a subir as montanhas que foram surgindo no meu caminho, ensinou-me a enxergar o branco da vida, ensinou-me a confiar e a perdoar, tornou o meu coração encantado e fez-me chorar de alegria.
Meio século passado na minha vida. Olhando o meu rosto vejo já as rugas do tempo. Olhando-me no espelho, vejo no fundo dos meus olhos, um jardim de violetas e um céu de estrelas. Escutando o meu coração, oiço uma orquestra de rouxinóis entoando lindas canções de amor e paz.
Os cabelos brancos que o espelho reflecte, fazem-me perceber que o tempo não pára; não pára mas não envelhece, para me poder acompanhar no meio século de vida que ainda me falta viver. Uma gota de luz, um breve pulsar, uma estrela cadente, um punhado de mar na idade do céu no Outono da vida a esperança da Primavera.
Cada estrela no céu, um dia na minha vida, uma tarefa a cumprir, um sonho a conseguir, uma estrada para prosseguir, muitas pedras para tropeçar, muitos objectivos a alcançar.
Para quê tantos dias?
Três chegavam. O primeiro para plantar uma árvore, o segundo para ter um filho e o terceiro para escrever um livro. Se para mim a vida fosse uma coisa vaga, talvez fosse suficiente, mas não foi nem é assim.
No dia em que nasci, há 50 anos, dois anjos se aproximaram de mim. Um bom e outro mau. Vieram proclamar os seus desejos. o mau, pelo instinto da própria maldade forçou a entrada e chegou primeiro. Olhou-me profundamente e com um sorriso irónico e maldoso disse:
- Para ti, pequena criança que nasceste por engano, menina que nasceste onde não devias, a tua sorte eu amaldiçoo. Terás uma vida mais longa do que vais desejar e sofrerás sempre do "mal de viver". Saiu, sem olhar para trás e sem que eu tivesse tido tempo de lhe pedir misericordia.
o anjo bom, sensibilizado como que acabava de ouvir, penetrou o seu olhar meigo e sensível em mim, e com um sorriso doce disse-me:
- Não tenho poder para anular a maldição do anjo mau, mas o meu desejo entrará em ti como um raio de sol e serás forte e capaz. Ainda que com muito sofrimento, batalhando sem cessar, irás chegar, abraçar, receber prendas e companhias. Terás o céu e a lua. A chuva e o sol irão envolver em ti o seu poder. O beijo perfeito será teu. Terás todo o tempo a que tens direito. Eu, o anjo bom, farei a seta bater-te no peito.
Com premonição antecipada da minah vida inverti a ordem dos acontecimentos, fui ambiciosa e precisei de 50 anos. Plantei uma grande árvore com muitas ramificações. Fiz e tive dois filhos lindos e bondosos. Escrevi poemas, escrevi livros, pensamentos, sonhos e emoções. Perdi-me e encontrei-me, desesperei e cheguei. Parti e voltei. Tropecei, caí, mas não fiquei no chão. Tive uma casa com varanda, para ver o sol e espreitar a lua entre as montanhas. A lareira acesa aqueceu o meu peito e a minha alma. Tive a jarra com flores em cima da mesa. Uma voz cantando. Cantigas de amor ouvi e com elas sorri. Lado a lado, em caminhos paralelos, ouvia cantigas de maldizer. Lado a lado, paralelas, não se encontravam!
Ainda que sofrendo do "mal de viver", cheguei. Em frente, onde está o futuro. Com e sem direcção. Deus na mão e ilusão no coração. Tive pão e pude distribui-lo. Inventei tempo por não ser capaz, sonhei em esquecer, esperei pelo tempo e perdi tempo a correr. Voei para dizer, mas o tempo não parou para eu crescer.
Toquei olhares e sorrisos, compaixões, desilusões, desgostos e venturas. Alcancei sonhos impossíveis. Ouvi a música, gostei da cantora, toquei-a, olhei-a de perto e senti o seu cheiro. Li o livro e invejei o autor. Escrevi o livro e foi lido. Vi a criança nascer, ajudei as mães e as avós. Dei conselhos e pûs a mão sobre cabeças. Fiz o bem e o mal. Vi o sol amanhecer e o céu escurecer. Sorri com a poesia, com o sol do meio-dia, com festas ao amanhecer.
Fui feliz perto de ti, chorei por mais um dia a viver, com cenários inimagináveis, cenas indesejadas. Chorei quando a vida me morrer e a morte me ergueu.
Tive pai, mãe, irmãos. tios, avós, primos, sobrinhos e afilhados, sogros e cunhados. Família que se ama e se odeia. Que nos ri e nos chora. Que fica sem se querer, que se quer e não se tem. Usei máscara e coroa. Fui rainha e cinderela.
Tive patrões, chefes e colegas, louvores, homenagens, flores e anéis, letras e poesias.
Tive amigos de infância e amigos para sempre.
Tive a boca molhada com beijos roubados e oferecidos.
Tive amores de quem gostei, amantes por quem me apaixonei, amizades, amores eternos que criei. Os amores vão e vêm, são cobardes e rebeldes, querem-se e desprezam-se.
Os amantes riem, vivem a chama, a labareda do amor, queimam-se a apagam-se.
As amizades inventam-se e existem. Plantam-se e florescem. Criam-se e perduram. O amigo não morre, nem vive. Dá-se e entrega-se; chega e dá a mão, dá a cana e ensina a pescar. Empresta os ouvidos e o coração. Dá o pão.
Agora, ainda que sofrendo pelo "mal de viver", num tempo que não refaz o que desfez, já não há tempo, já tudo mudou de cor. Escuridão, esplendor, morte, vida e esperança ainda cabem, ou já cabem em mim.
Vestida de dourado, com cheiro a alecrim, a alma iluminada e com corpo de mulher.
Marcas do que fui e sou são reserva limitada e doada. Estão nos beijos que recebo e nos ensinamentos que deixo.
A minha vida por quem inflama o meu coração. Os meus filhos e os que adoptei, e o meu bem-querer que não tem "não" no coração, fazem sorrir a alegria triste da minha felicidade.
A maldição do anjo mau perdurou e me acompanhou, mas a bondade e os desejos do anjo bom, foram rosas vermelhas e brancas que cresceram no meu coração.
Um rosto com carinho e afeição, uma morte antecipada numa vida vivida.
Vida de louvores, poemas e cantigas! Filhos e amigos!
Que mais posso querer?
Durante o dia o sol teimava em brilhar e aquecer os corações. As noites continuavam a ser belas noites de Verão, quentes e calmas, em que cada vizinho trazia a sua pequena cadeira de madeira, e em que cada um sentado à sua porta, naquela pequena rua, falava do que lhe ia na alma.
As mulheres aproveitavam o tempo para adiantar a toalha de renda que queriam pôr na mesa, no dia do casamento da sua primeira filha.
Cada palavra tinha a dureza e o cansaço da vida, igual a cada ruga dos seus rostos marcados pelo sol, mas havia esperança em cada palavra que os seus corações ditavam.
A todos eu conhecia desde o tempo em que me trouxeram ao colo. De cada um levaria a recordação carregada de saudade que eu já sentia, apesar de ainda não ter partido. Sorria, ao ouvi-los através da janela do pequeno quarto que dividia com a minha irmã Rita. Desenhos reflectidos pela luz do candeeiro que incidia nas paredes pintadas de azul-escuro, faziam-me imaginar as personagens dos livros que lia. A melodia suave, talvez até triste, das músicas que ouvia, fazia-me sonhar com uma felicidade encantada e inventada...a felicidade que o Sr. José, também sentado na sua cadeira, e de todos o que eu mais amava...me fazia acreditar! Um dia talvez!
Uma angústia rebelde, que eu contrariava, sem conhecer o seu nome nem o seu rosto, invadiaa o meu coração desde os tempos mais remotos que a minha memória regista. Teimosa angústia que insiste em entrar apesar das portas fechadas.
Do lado de cá, através dos vidros da janela está o mar, dizem!
Além, bem no fundo, estão as montanhas. Montanhas, da serra da minha infância, são elas que eu vejo, com a mão dada ao Sr. José que me ensinou a amá-las. O Sr. José que protegia do frio e do medo da vida. Belas, únicas, as minhas montanhas, rodeadas da mais verde relva, onde um dia refresquei os pés descalços no orvaloho da manhã.
As únicas boas recordações da infância: O Sr. José e as montanhas.
As montanhas ainda estão lá, o Sr. José não.
Longe, no tempo e no espaço, vejo-os através dos vidros da janelas, no lugar do mar.
O canto das aves, a cauda abanando, a flor a desabrochar no canteiro, tudo parecia dizer que era a Primavera da vida, um tempo de adolescência, de alegria, de irreverência, de encontro com o namoro e com a alegria de viver, mas apesar do brilho do sol, fazia muito frio e as manhãs pareciam velhas.
Um amor me consumiu e depois sumiu. Num tempo de entrega, me doei; A quem me amou, a quem me odiou, me aceitou e me recusou. Sempre atenta, sem me distrair, enganei-me sem saber, abri portas e não saí. Dei-me a quem me matou, ressuscitei sem me arrepender. Amarga vida que vivi no amor desmemorável, por esse amor que me teve e a quem amei como a ninguém.
Tendo por tecto o céu e o passo por sapato, não pensando e não querendo pensar, tinha chegado o momento de partir.
Sem dizer que seria a pessoa certa, toquei o seu olhar. Em busca do vale encantado, procurando o céu, a estrela cintilante, pensando ter razão na hora certa, magoei quem me quis bem. Fecho os olhos para rezar e peço perdão; perdão porque eu não queria renunciar a mim, ainda queria continuar viva, continuar a vida, encontrar o caminho de regresso ao passado. Olhava o novo pelo velho, não percebia que o futuro fica em frente. O meu ser errante, num esforço sobre humano foi traiçoeiro e cometeu a maldade de trocar a verdade pelo sonho. Não soube ver a realidade, e as palavras acabaram.
Nós, que a vida atou fui desatando sem cessar.
Marcou a vida a minha alma, minha pele, minhas entranhas. Erros, acertos, verdades, enganos e desenganos. Entre lágrimas, risos e até cantigas...enfrentando acusações, libertei-me das algemas e amarras, saboreei a liberdade e de forma simples e singela, apenas contrapûs poemas a intrigas. Riqueza para mim é o sol, o vento, a chuva, algodões espessos de nuvens num céu brilhante de amor. O meu ouro inútil, troquei por poemas e cantigas. O meu destino segui, e encontrei a mais valiosa razão, os meus filhos, um momento sem descrição, vida plena, uma forma de viver, um momento de morrer, um momento que sem modéstia, declamo em tom alto e superior, momento meu, absoluta e egoístamente meu!
Sempre corri atrás da vida, pedi licença mas sempre entrei, e se algum cansaço sinto, é dos passos que não dei. Consegui vitórias e fracassos mas não os separei, e muito menos ignorei os fracassos. Venci-os, entre lágrimas e segredos, na ilusão de um mar invisivel, por tantas vezes em que o meu mundo escureceu.
Com todas as virtudes e erros, caminhei, chorei, ri. Vivi uma vida cheia de tudo e de nada. Uma vida profunda, rente à pele, olhos nos olhos, sem mistério.
Olhando a aurora nascer, enxerguei a sua cor, o meu sangue ferveu e o meu pulso acelerou.
As marcas do que fui e sou, me dão beijos, carícias, cuidados, carinhos e rosas, muitas rosas, algumas vermelhas. A beleza do amor paira sobre mime eu sou feliz. No encontro com o Outono da vida tenho as montanhas bem juntinho do mar.
Em todos os períodos de férias escolares eu ia com o meu avô e os seus empregados para os diversos pomares de fruta, colhia maçãs, laranjas, pêssegos, tangerinas, que mais tarde iria vender nos mercados e eu ia com ele. Oh! como eu gostava! Gostava do convívio com os empregados, do trabalho do campo, de comer a merenda do almoço numa mesa feita de pedras, de beber a água fresca do rio que passava por entre as àrvores, de colher a fruta e mais tarde vender essa mesma fruta; Do contacto com público era mesmo o que eu mais gostava.
Correndo pelo pomar de laranjas, olhando a sua extensão e grandiosidade, pensava na dimensão do mundo, do que seria a minha vida. A minha vida correu, crescendo como cada uma das àrvores dos pomares, que em cada ano florescia e fazia nascer um novo fruto.
Tinha, plantada dentro de mim a semente da descoberta, da aventura, da ambição, mas mais que tudo a semente do amor e da amizade, da honestidade e da confiança. Aparte do que o destino já tinha traçado para mim, sempre tentei seguir o meu caminho, baseada nos valores que sentia como verdadeiros, nos valores que o meu pai e o meu avô me tinham ensinado, e a principal qualidade que aprendi foi a de amar os outros como a mim mesma.
Com o meu pai ia fazer as entregas da fruta aos clientes, em todas as cidades, aldeias e vilas do distrito onde vivíamos. Quando o Inverno era rigoroso de mais e toda a fruta amadurecia em simultâneo, e por isso se estragava com facilidade íamos para as povoações mais pobres vender a fruta a peços mais baixos. Chegados aí, eu saía do carro e chamava as pessoas do povoado, incitando-as a comprar. Delicadamente lhes falava e com muita facilidade lhes vendia a quantidade de fruta que queria. Sempre foi fácil fazer as pessoas confiar em mim e nas minhas intenções. No entanto, algumas vezes tive a tendência para as enganar no peso da fruta, ou no troco. A maior lição de que me lembro foi precisamente quando o meu pai percebeu que eu estava a tentar enganar uma freguesa. Chamou-me à parte, e, sem me ralhar, num tom doce e suave, mas autoritário o suficiente para que eu não esquecesse nunca, e olhando-me profundamente, disse-me que a maior qualidade do ser humano é a honestidade.
"Não te aproveites das tuas qualidades para enganar o próximo, sê fiel a ti mesma", disse-me. Pediu-me então para continuar a atender a freguesa, e, como se nada tivesse acontecido beijou-me a face.
Aindahoje, cinquenta anos depois, lembro este acontecimento com todo o carinho com que o meu pai falou comigo naquele dia, que foi o primeiro do resto da minha vida.
Com os ensinamentos que havia tido, reguei todos os dias cada uma das sementes plantadas em mim, procurei dar-lhes o sol, a chuva e o vento necessários para o seu florescimento, e em cada uma das sementes eu encontrei um novo fruto nascendo.
Fiz da vida um barco e com ele naveguei pelo mundo. Em cada porto, em cada cais, o movimento do barco foi seguindo o rumo do vento, rolando na dança das ondas, encantando-me em cada noite de esplendor.
Conheci a amizade, a lealdade, a paz, a inquietude e a mentira. Caminhei, chorei, ri, cometi maldades e loucuras, apanhei flores no jardim e ofereci o meu coração. Doei-me por inteiro, recebi louvores, flores, cantigas e poemas.
Na estrada da vida, vi alua iluminar a casa, vi o sol nascer na montanha, a chuva cair na praça, vi o homem lavrar a terra, vi o relâmpago e ouvi o trovão. Vi a moça olhar o mar, acreditando. Vi o tempo dificil aperfeiçoar o aprendiz e vi o rapaz chorar.
No caminho que segui, por entre glórias e infortúnios, chorei a rir e ri para não chorar, ousei cantar e dançar, e entre a arrogância e a tolerância, aprendi a não andar com os pés no chão e a olhar o horizonte, e, sem me precipitar no tempo, fiz promessas que cumpri, senti o coração pulsar e conheci o amor.
Nossa Senhora da Estrela, Senhora da serra onde eu nasci, sempre me acompanhou e protegeu. Ajudou-me a subir as montanhas que foram surgindo no meu caminho, ensinou-me a enxergar o branco da vida, ensinou-me a confiar e a perdoar, tornou o meu coração encantado e fez-me chorar de alegria.
Meio século passado na minha vida. Olhando o meu rosto vejo já as rugas do tempo. Olhando-me no espelho, vejo no fundo dos meus olhos, um jardim de violetas e um céu de estrelas. Escutando o meu coração, oiço uma orquestra de rouxinóis entoando lindas canções de amor e paz.
Os cabelos brancos que o espelho reflecte, fazem-me perceber que o tempo não pára; não pára mas não envelhece, para me poder acompanhar no meio século de vida que ainda me falta viver. Uma gota de luz, um breve pulsar, uma estrela cadente, um punhado de mar na idade do céu no Outono da vida a esperança da Primavera.
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